Diria que o Poder de proximidade (Câmaras e Juntas de Freguesia), estão tão longe do cidadão comum quanto o governo central, desfasado das grandezas e misérias dos anónimos que diariamente labutam e repartem com o Estado e à sua mesa, o resultado do seu trabalho.
Quem olha para Estarreja, identifica imediatamente dois potenciais clusters geradores de emprego e riqueza. O parque industrial, e a agricultura subsistente nos terrenos do Baixo Vouga, na sua maior parte e infelizmente, abandonados.
No que diz directamente respeito à vida dos cidadãos, o executivo camarário em exercício, tem mandado pintar uns muros e tapado uns buracos nas ruas. Por sua vez, as Juntas de Freguesia, têm ampliado os cemitérios locais. É tudo.
De estrutural à comunidade, nada. As hipóteses de instalação de grandes empregadores como o IKEA, por uma ou outra razão, acabam invariavelmente noutras paragens. Instrumentos fundamentais para a nossa vida, tais como um PDM que permita desenvolvimento e valorize a propriedade, são tratados com o desleixo que nem oito anos de mandato, conseguiram ultimar. A pouca agricultura subsiste apenas na teimosia de uns poucos proprietários que insistem em não abandonar os terrenos às silvas. A produção leiteira está moribunda e mesmo uma potencial riqueza concelhia, a carne da raça autóctone Marinhoa, não entra nos circuitos comerciais. Um bezerro Marinhão, vale menos do que um cão de raça.
Isto porque os órgãos do Poder, estão completamente desfasados e alheados da realidade e de todo, afastados da vida e dos cidadãos. Promovem festas e construções de duvidoso interesse, enquanto vão empenhando os contribuintes e alienando todo o bem público que possa ter valor, como é o caso da venda das águas do Concelho à ARA.
Do alto do seu Olimpo, o Poder vai anunciado os apoios à agricultura, as linhas de crédito bonificado, as alterações legais à produção e o mundo sem fim das burocracias. Na vida real, tal, nada significa. Em muitas destas freguesias rurais, nem um só agricultor conhece os ditos anúncios, nem um só, sabe como enfrentar a tempestade burocrática subjacente, onde ou a quem se dirigir.
Se os órgãos do Poder próximo estivessem vocacionados para servir e desenvolver o que é importante para as nossas vidas, nos interregnos das festarias e passeios, disponibilizariam meios e recursos, técnicos e humanos, para a formação profissional de agricultores e produtores de gado, nas respectivas áreas de cultivo e criação, fomentando e modernizando estas actividades. Criariam os apoios necessários à ultrapassagem das condicionantes burocráticas, conduziriam quem apenas sabe semear ou criar, ao acesso aos fundos de apoio, ao conhecimento, às inovações introduzidas no mundo rural.
Mas não. Deixamos a riqueza escapar-se-nos imbecilmente por entre os dedos, alegre e irresponsavelmente pulirando de festa em festa, de eleição em eleição. Dos derradeiros oito anos de gestão autárquica, em Estarreja, de real valor para a vida dos cidadãos, pouco ou nada fica, para além da tinta que a chuva lava nos muros e desaparece no chão. Estão passados e perdidos, mais oito anos das nossas vidas.
O que está em causa em cada eleição, não é o circo partidário ou sequer, a personalidade candidata. O que está em causa, é a vida real de cada um de nós e as condições em que viveremos o próximo período. No dia seguinte a cada eleição, a festa acabou. O que fica é o emprego que se tem ou não, o salário que nos permite ter uma vida digna ou não, os impostos que nos asfixiam, ou não.
Partidos e candidatos são-me indiferentes. Apenas me interessa o que se propõem fazer para melhorar a minha vida, a minha terra, o meu país. O PSD e o seu candidato a Estarreja, no momento que escrevo estas linhas e a quatro semanas das eleições, aos eleitores, disseram nada. Uma palavra, uma ideia, um programa. Nada. Um total desprezo pelas nossas vidas, uma irresponsabilidade intolerável, inadmissível e inaceitável. Muito mais do que querelas partidárias, futuros políticos ou profissionais dos profissionais da política, a única coisa que se joga e está em causa, é a vida de cada um de nós. E a vida, essencialmente, não se faz de inaugurações pífias e apressadas, em vésperas de eleições, e muito menos, da distribuição de bonés e esferográficas.
Um programa de governo, é algo demasiado importante para que não seja apresentado com o tempo necessário ao seu estudo e discussão. E mesmo que o faça nos próximos dias, será demasiado tarde para a sua necessária e obrigatória dissecação.
Publicado no Jornal de Estarreja de 19/09/2009